há 5 dias
Giovanni Cardoso

A democracia não costuma morrer de uma vez. Ela vai sendo tensionada, corroída, esvaziada por dentro. O que se observa nos Estados Unidos sob o governo Trump é justamente esse processo: uma sequência de decisões e gestos políticos que, somados, desenham um preocupante enfraquecimento das bases democráticas.
A atuação do ICE tornou-se um dos símbolos mais visíveis dessa escalada. A política de perseguição agressiva a imigrantes, com operações espetaculosas e detenções em massa, ultrapassa o debate legítimo sobre controle migratório e assume contornos de intimidação social. Inclusive, naturalizando a morte de cidadãos norte-americanos por esses agentes. Mais grave ainda é o envio de agentes federais para atuar de maneira ostensiva em estados e cidades governados por Democratas, muitas vezes à revelia das autoridades locais, tensionando o pacto federativo e criando uma espécie de intervenção política indireta.
A democracia também se enfraquece nos gestos simbólicos. A exclusão de governadores Democratas de eventos tradicionais que historicamente reuniam lideranças de ambos os partidos com o presidente - inclusive a ausência de convite ao único governador negro do país - não é mero detalhe protocolar. É sinalização política de que o diálogo institucional deixa de ser regra para dar lugar à lógica da exclusão e do adversário como inimigo.
Há ainda o uso do orçamento como instrumento de pressão. O corte ou bloqueio de verbas destinadas a áreas sensíveis, como saúde pública, em estados governados pela oposição, não se enquadra apenas como divergência administrativa.
Trata-se de uma prática que instrumentaliza políticas públicas para punir o povo em nome de divergências políticas, ferindo o princípio de que o Estado deve servir à população independentemente da cor partidária de seus governantes.
A retórica constante de deslegitimação de eleições, ataques à imprensa, confrontos com o Judiciário e estímulo à polarização permanente completam esse quadro. Democracias vivem do respeito às regras do jogo, da alternância de poder e da confiança nas instituições. Quando o próprio chefe do Executivo coloca esses pilares sob suspeita contínua, o sistema passa a operar sob tensão permanente.
Não por acaso, manifestações de rua e mobilizações da sociedade civil têm se multiplicado nos Estados Unidos. Parte significativa da população percebe que a normalização de práticas autoritárias corrói silenciosamente o regime democrático. A história mostra que erosões institucionais nem sempre são abruptas; muitas vezes acontecem sob o manto da legalidade formal.
Esse modelo não é distante da realidade brasileira. Foi exatamente esse tipo de projeto que a família Bolsonaro tentou implementar no Brasil, seja pela via eleitoral, seja pela tentativa de ruptura institucional entre 2022 e 2023. A afinidade política e discursiva não era coincidência. Documentos já tornados públicos indicam, inclusive, a circulação de recursos e articulações internacionais que levantam questionamentos sobre financiamentos e conexões transnacionais de grupos extremistas. A parte dos documentos do caso Epstein que vieram a público confirma o repasse de milhões de dólares a pessoas no Brasil.
O Brasil escapou de um processo mais profundo de deterioração democrática graças à resistência institucional e à reação da sociedade. Mas o alerta permanece. O que se observa nos Estados Unidos não pode ser tratado como modelo a ser seguido. Ao contrário, deve servir de advertência.
A democracia norte-americana, com sua tradição e seus freios institucionais, certamente reagirá. As manifestações nas ruas indicam que parte expressiva da sociedade não aceita a substituição do diálogo pelo confronto permanente. Muito provavelmente, essa inflexão autoritária será rechaçada pelos próprios eleitores.
O fim da democracia não é inevitável – e por isso exige vigilância constante. E essa é uma lição que vale tanto para os Estados Unidos quanto para o Brasil.
Oliveiros Marques é sociólogo, publicitário e comunicador político