há 2 horas
Oliveiros Marques

A debandada de deputados do PSDB para o PSD não é um acidente de percurso nem fruto apenas de rearranjos eleitorais nos estados. Ela é, antes de tudo, consequência de uma escolha política feita há mais de uma década: a decisão de Aécio Neves de criminalizar e judicializar a política brasileira a partir de sua derrota para Dilma Rousseff em 2014.
Nunca é demais lembrar que foi o deputado mineiro quem inaugurou a narrativa de questionamento dos resultados eleitorais dos derrotados. Ali, o PSDB deixou de ser um partido que disputava projetos para o país e passou a atuar como catalisador de um discurso que minou as bases da própria democracia que dizia defender.
Ao não reconhecer o resultado das urnas e apostar na deslegitimação do processo eleitoral, Aécio abriu a porteira. Incentivou pedidos de impeachment sem crime de responsabilidade, estimulou a ideia de que a política era essencialmente corrupta e alimentou a noção de que as instituições estavam capturadas por um “sistema” perverso. Foi um erro histórico. Ao invés de fortalecer a oposição democrática, o PSDB ajudou a criar o terreno fértil para o surgimento do fascismo bolsonarista.
Esse movimento teve um efeito perverso: quem sempre viveu do sistema passou a se apresentar como antissistema. Políticos que jamais questionaram privilégios, que sempre circularam pelos corredores do poder, passaram a posar de outsiders, surfando na indignação popular que eles próprios ajudaram a estimular. O resultado foi a ascensão de uma extrema direita autoritária, negacionista e violenta, que corroeu o centro político e engoliu o espaço outrora ocupado pelo PSDB.
O esvaziamento tucano, portanto, não começa agora. Ele é consequência direta da renúncia ao papel histórico de um partido que, com todos os seus defeitos, ajudou a estruturar a democracia brasileira no pós-ditadura. Ao trocar o debate programático pela aposta no “quanto pior, melhor”, o PSDB – sob o comando de Aécio e o silêncio cúmplice de muitos - perdeu identidade, perdeu base social e perdeu quadros. A migração para o PSD nada mais é do que reflexo disso: parlamentares buscam hoje abrigo em um partido pragmático, que se posiciona ao centro e resista, ainda, ao flerte com aventuras golpistas.
Aécio Neves não apenas perdeu uma eleição; ele ajudou a desorganizar o campo político que dizia representar. Ao criminalizar a política, imaginando com isso enfraquecer o PT, enfraqueceu a própria política - e abriu espaço para quem usa da mentira, da raiva e da violência como instrumento de disputa de poder. O bolsonarismo não surgiu do nada. Ele foi gestado no vácuo criado por lideranças que, inconformadas com a derrota, preferiram incendiar a casa a aceitar o jogo democrático.
O preço dessa escolha está sendo pago agora. E não apenas pelo PSDB. Foi pago pelo país inteiro com 700 mil mortes na pandemia, 6 anos de atraso e tentativas de golpes contra a democracia.
Oliveiros Marques é sociólogo, publicitário e comunicador político