Sexta-feira, 29 de Agosto de 2025

Professor da UEPG une pesquisa e amor aos animais na produção de cerveja

2025-08-29 às 15:16
Foto: Jéssica Natal

Uma panela grande para fazer cerveja na cozinha de casa. Ao lado, um cachorro de estimação, que observa todo o processo. A rotina inusitada fez com que Luiz Gustavo Lacerda, professor do Departamento de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Ponta Grossa, unisse duas paixões em uma: fabricar cervejas e ajudar os animais. Na série UEPG Extraordinária desta sexta-feira (29), a instituição conta a história do docente que alia a ciência com o amor pelos cães comunitários.

Tudo começou na cozinha de casa

“Eu comecei a fazer cerveja em casa em 2009. E na época eu tinha, assim, algum conhecimento prévio”, recorda Luiz Gustavo. Na época, o professor tinha uma cachorra – “e olha que história engraçada, eu não queria comprar, e para adotar a Nina eu dei um som de carro em troca, pra ela vir comigo”, ri. O nome dela era Nina, que naquele ano já estava com mais de 10 anos e com câncer. “Mas ela me acompanhava no processo produtivo da cerveja, ela sempre ficava do meu lado”. Para homenagear a companheira, as primeiras produções de cerveja caseira do professor levavam no rótulo o nome Nina Belgian Pale Ale. “Foi a primeira cerveja que eu fiz, com uma bandeirinha da Bélgica e o nome da Nina no rótulo”.

Nina faleceu um ano depois, mas a produção de cerveja e a companhia de “doguinhos” continuou – quatro meses mais tarde, veio o Oliver. “Ele apareceu no Parque Barigui, em Curitiba, era um cachorro bonito da raça labrador. E ele pulou no carro da minha irmã e depois foi parar na minha casa”. Luiz Gustavo até tentou achar o possível dono do Oliver, fez anúncios pela cidade por meses. “Mas a gente acabou se apegando muito ao Oliver, e eu não sei por qual motivo ele também passou a me acompanhar fazendo cerveja. Toda vez ele estava lá junto comigo”, conta. E assim surgiu mais um rótulo de cerveja, com o nome Oliver, arte que ganhou até impressão em objetos, como bonés e placas.

Quando Luiz Gustavo passou a integrar o corpo docente da UEPG, em 2015, os cães que moravam nas proximidades do prédio do curso de Engenharia de Alimentos também começaram a fazer parte da rotina do professor. “Eu lembro que sempre os via por lá, tinha o ‘Véio’, a Gisele, o Presidente, o ‘Caolho’… e à medida que eu dava aula, os alunos decidiam homenageá-los, fazendo cervejas e rótulos diferentes pra cada um”. E assim foram surgindo cervejas stalt, pilsen, lager, e cada uma recebia um nome de um cachorro do campus.

“Já no início da pandemia de covid-19, o Oliver começou a ter epilepsia. E foi assim que eu decidi fazer algo benéfico com o que eu fazia em casa e na sala de aula”, recorda o professor. Após o falecimento do Oliver, em 2020, Luiz passou a oferecer cursos para pessoas que desejam aprender a fazer cerveja. “Todo o valor cobrado vai para a causa animal. Ofereço alguns cursos aqui na UEPG, e também já fui para outras cidades. Eu cobro custos com insumo, mas o valor da minha mão de obra e o conhecimento fica tudo pros cães, né?”. Com a chegada do Projeto de Extensão Cão Comunitário na UEPG, o professor oferece cursos na área, e todo o valor vai para o projeto custear ração e medicamentos.

A ideia do curso é que as pessoas aprendam a fazer cerveja em casa. “Aqui geralmente a gente faz uma american pale ale, mas dependendo da época do ano eu ensino a fazer uma cerveja diferente. No inverno, a gente faz uma stout, que é uma cerveja mais de frio. Na primavera, é bom uma saison ou uma witbier, e no verão é bom uma cream ale ou pilsen”, explica. No mês de setembro, o professor planeja oferecer mais um curso, que acontecerá no laboratório de Engenharia de Alimentos.

Pesquisa sobre cerveja

A produção de cerveja também ganha destaque nas pesquisas que Luiz Gustavo conduz. Na Iniciação Científica (Pibic), ele orienta a aluna Gabriela Tkaczuk Silva, que busca alternativas sustentáveis para a fabricação da bebida. Uma das saídas pesquisadas pela dupla é utilizar a farinha de rosca como ingrediente. “A gente utiliza o pão com uma proposta sustentável, utilizando o carboidrato e o açúcar como formas de fermentação. Então a gente substitui parte do malte por essa farinha de rosca”, conta a Gabriela.

Para a cerveja ficar pronta, várias etapas precisam ser seguidas. Segundo a dupla, o processo inicia separando o malte, analisando a formulação a ser utilizada e fazendo a moagem dos ingredientes, para que seja possível acessar o amido que está presente dentro do malte. “Esse amido é uma cevada maltada. A gente vai triturar ela, moer para conseguir acessar esse líquido de uma forma mais fácil”, informa a aluna. Depois, os ingredientes são levados até a panela com água, para transformar em açúcar que será consumido pela levedura. Os próximos passos são transferir o líquido para outra panela, para separar o malte, e iniciar o processo de fervura. “E é aí que a gente vai entrar com o lúpulo, que vai agregar muito no aroma e no amargor da cerveja”, acrescenta a pesquisadora.

Ainda, tem mais um processo de resfriamento, tudo com intervalos para descanso entre as etapas, para conseguir o álcool e o CO2. “O processo ao todo leva um mês para finalizar, pois apenas o tempo de fermentação leva cerva de 24 dias, porque antes da fermentação o trabalho é mesmo preparar uma espécie de caldo doce, para depois acrescentar o lúpulo, que vai causar essa fermentação”, explica Luiz Gustavo.

A cerveja fabricada por Gabriela, a partir da farinha de rosca, é avermelhada e com sabor encorpado. “O pão, que origina a farinha de rosca, deixou a cerveja com cor mais escura, e percebemos que o sal desse pão até realçou o sabor”, explica o professor. A opção pela fabricação de cerveja com farinha de rosca se torna uma alternativa mais econômica, visto que o ingrediente vem de sobras de pães que ficaram na prateleira das padarias, como explica a dupla. “A gente conseguiu substituir parte do malte, que é um insumo nobre, com farinha de rosca, que é um insumo com baixo custo. É uma jogada incrível, né?”, defende o professor. Os pesquisadores ainda esclarecem que o estudo ainda é experimental, garantindo a qualidade com o uso do malte na receita.

Processo de produção

Para os cursos que Luiz Gustavo ministra, são necessários poucos ingredientes: malte, água, lúpulo e levedura. “E tem os equipamentos básicos, uma panela perfurada com válvula, termômetro e uma tela que serve de filtro”, acrescenta Luiz. Mesmo iniciando a produção em casa, antes de ser professor da UEPG, o docente destaca o total apoio do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos na iniciativa que une ciência e causa animal. A paixão pela cerveja é só em produzir? O professor garante: “fazer cerveja é uma terapia tão grande, porque demanda atenção em cozinhar, e tem a parte sensorial, porque o cheiro é muito característico. Mas beber mesmo eu bebo muito pouco”, brinca.

da assessoria