há 12 horas
Heryvelton Martins

Um Inquérito Policial Militar (IPM) instaurado em 1997 pelo Exército para apurar suposto envolvimento de militares no caso Varginha concluiu que não houve captura de criatura extraterrestre na cidade mineira em 1996. O relatório, com mais de 600 páginas e hoje disponível no sistema do Superior Tribunal Militar, afirma que todas as movimentações de viaturas, escalas de serviço e ordens internas estavam compatíveis com a rotina normal, sem registro de operação sigilosa para transporte de ser “não humano”.

Conforme o IPM, o episódio teria origem no relato das três jovens que, em um terreno baldio, viram o que descreveram como uma criatura agachada, de pele marrom, olhos grandes e corpo magro, em um dia chuvoso de janeiro de 1996. Após ouvir dezenas de militares, bombeiros e moradores, o Exército concluiu que elas possivelmente se depararam com um homem com transtornos mentais, magro, conhecido na cidade como Luís Antônio de Paula, apelidado de “Mudinho”, que costumava circular agachado e buscar abrigo junto a muros.
Mesmo com a versão oficial, as três testemunhas centrais – Kátia Xavier, Liliane de Fátima Silva e Valquíria Silva – afirmam, há quase 30 anos, que viram uma criatura que não era humana e mantêm detalhes do relato sem mudanças relevantes. Elas relatam impactos emocionais de longa duração, como bullying, depressão e prejuízos na vida escolar e familiar, o que para ufólogos que defendem a autenticidade do caso reforça a ideia de que não se trataria de invenção interessada em lucro.
O caso ganhou força na década de 1990 com depoimentos gravados de militares e bombeiros, que falavam em uma operação de captura de um ser baixo, de pele oleosa e cheiro forte, supostamente levado para unidades militares e hospitais. Três décadas depois, parte desses militares afirma que inventou as histórias, citando pressão de ufólogos e promessa de pagamento para gravar os relatos, o que, por outro lado, alimenta novas suspeitas entre quem acredita em acobertamento.
O IPM detalha que nenhum depoente da área militar confirmou ordens para captura, transporte ou guarda de criatura estranha, nem deslocamentos fora da rotina com viaturas do Exército. A conclusão arquivada no STM indica não haver provas de envolvimento institucional das Forças Armadas com suposto extraterrestre e trata o caso como “grande engano” amplificado por boatos, cobertura da imprensa e obras de ufologia.
Em notas públicas recentes, após a divulgação do conteúdo do inquérito, o Exército reforçou que a investigação interna encerrou o assunto, afastando qualquer hipótese de contato com seres de outro planeta. Mesmo assim, ufólogos e parte do público seguem questionando lacunas, apontando contradições de testemunhas ao longo do tempo e sustentando que determinados documentos, vídeos ou exames médicos nunca teriam sido totalmente apresentados ao público.
Às vésperas dos 30 anos do caso, documentários e reportagens resgataram gravações inéditas de 1996, que mostram as meninas ainda adolescentes descrevendo a criatura com forte carga de medo e sem o contexto do fenômeno midiático que viria depois. Esses materiais são usados por pesquisadores como argumento de que a reação inicial da família indica que algo, ao menos para elas, foi percebido como extraordinário naquela noite.
Ao mesmo tempo, ex‑militares que haviam sustentado, em entrevistas a ufólogos, a versão da captura do ET agora dizem que mentiram ou exageraram os relatos em troca de vantagens, fragilizando um dos pilares da narrativa ufológica clássica do caso. A coexistência de um inquérito oficial que fala em “homem magro com transtornos mentais” e de testemunhas que não arredam o pé da versão de um ser não humano ajuda a explicar por que o episódio de Varginha segue cercado de dúvidas, interpretações e disputas de memória quase três décadas depois.