há 2 horas
Heryvelton Martins

Mesmo em um ambiente de maior incerteza política e econômica, a indústria paranaense entra em 2026 com a maioria dos empresários ainda confiante no desempenho dos próprios negócios, segundo a 30ª edição da Sondagem Industrial da Fiep. O levantamento mostra que 55% das indústrias seguem otimistas em relação à sua atividade neste ano, enquanto apenas 12% se declararam pessimistas e 33% adotam postura neutra.
A pesquisa, divulgada nessa segunda-feira (2), ouviu 738 empresas de todos os portes e regiões do estado, com 99% de confiabilidade estatística e margem de erro de 4,7%. Micro e pequenas indústrias representam 68% das respostas, seguidas por médias (27%) e grandes (5%), o que dá um retrato ampliado da base produtiva paranaense.
Apesar da narrativa de “menor otimismo”, os dados indicam que o industrial paranaense continua acreditando mais na força do próprio negócio do que no cenário macroeconômico. Enquanto 46% dos entrevistados projetam retração para a economia brasileira em 2026, o percentual de otimistas com as próprias empresas é bem maior, de 55%, com mais um terço em posição de cautela, sem se declarar pessimista.

Entre os empresários otimistas, o sentimento positivo está ancorado sobretudo em três fatores: possibilidade de aumento nas vendas (56%), abertura de novos mercados (51%) e aumento da produtividade (46%). Na prática, esse conjunto de respostas revela um setor que, mesmo olhando com preocupação para Brasília, aposta em competitividade, diversificação e ganhos de eficiência para sustentar o crescimento no Paraná.
Um dos principais sinais de confiança é a disposição em investir: 84% das indústrias ouvidas afirmam que pretendem investir em 2026, e 59% dizem que devem aplicar o mesmo volume ou mais do que no ano passado. Apenas 16% não têm planos de investimento, enquanto 25% projetam reduzir o montante em relação a 2025.
Os recursos planejados se concentram em áreas diretamente ligadas à competitividade: melhoria de processos, produtos ou serviços (63%), redução de custos de produção (46%), prospecção de novos mercados (45%) e ampliação da capacidade produtiva (38%). A combinação desses fatores indica um movimento mais pragmático: diante de incertezas externas, o industrial mira ganhos rápidos de eficiência e consolidação de mercado para continuar crescendo.
A Sondagem também mostra que o tema produtividade está no centro da agenda das empresas. Para ampliar a produção, 75% das indústrias apontam como principal caminho a adoção de estratégias de melhoria de processo produtivo, seguida pela qualificação profissional (64%), estratégias de gestão (36%) e automação e robotização (26%).
Um dado que chama atenção é o avanço da inteligência artificial no chão de fábrica e na gestão: 15% dos entrevistados afirmam já utilizar ferramentas de IA, o que representa aumento de sete pontos percentuais em relação à edição anterior da pesquisa. O dado indica que, mesmo sob pressão de custos e juros, parte relevante das empresas continua apostando em tecnologias emergentes para ganhar produtividade.
No comércio exterior, a intenção de exportar diminuiu: apenas 30% das indústrias paranaenses afirmam que devem vender para o exterior em 2026, 17 pontos percentuais a menos do que em 2025. Entre as que planejam exportar, 55% pretendem comercializar insumos e matérias-primas, 26% máquinas e equipamentos, 11% serviços e 8% tecnologia.
Também recuou a parcela das empresas que pretendem importar, que passou a 44%, queda de 14 pontos percentuais em relação à sondagem anterior. Os principais itens importados seguem sendo insumos e matérias-primas (45%), máquinas e equipamentos (31%), produtos acabados (18%), tecnologia (5%) e serviços (1%). Na prática, os números sugerem que, em 2026, a estratégia de boa parte da indústria será fortalecer a operação doméstica e reduzir exposição a oscilações externas.
Mesmo com alto grau de desconhecimento declarado sobre os detalhes da Reforma Tributária, a percepção captada pela Sondagem é, em geral, moderadamente positiva. No total, 71% dos entrevistados afirmam não conhecer todos os impactos da reforma, porcentual que sobe para 76% entre micro e pequenas indústrias, cai para 64% entre médias e 41% entre grandes empresas.
Ainda assim, 39% dos respondentes acreditam que a reforma será positiva para seus próprios negócios, e 46% têm visão positiva sobre os efeitos para a economia brasileira como um todo. Mais da metade, 55%, espera redução da complexidade do sistema tributário, apontando um sentimento de que, superada a fase de adaptação, o novo modelo tende a simplificar o ambiente de negócios.
Quando olham para o ambiente geral de negócios, os empresários elencam um conjunto de entraves que extrapola a realidade interna das empresas. Corrupção é apontada como principal fator que prejudica o ambiente de negócios por 83% dos entrevistados, seguida pela conjuntura econômica nacional (74%), pela agenda de reformas (62%) e pelas políticas sociais governamentais (50%).
Ao mesmo tempo, os dados de investimento, produtividade e adoção de tecnologia mostram uma indústria que tenta avançar apesar dessas barreiras. Na avaliação da própria Fiep, as estratégias das empresas revelam uma preocupação com objetivos de curto prazo, focada em eficiência operacional, redução de custos e consolidação de mercado em meio ao cenário externo de incerteza.