há 2 horas
Heryvelton Martins

O silêncio é a única defesa no apartamento de Mariana (nome fictício). Se a campainha toca sem aviso, as luzes permanecem apagadas e ninguém se aproxima da janela. Natural de Ponta Grossa, ela vive hoje o que chama de “gaiola de ouro”: uma estabilidade financeira conquistada em solo americano, mas sob a sombra constante de uma ordem de deportação que pode ser executada a qualquer momento.
O caminho para os Estados Unidos não começou em um consulado, mas com a venda de um carro e móveis da família em Ponta Grossa. Mariana pagou cerca de R$ 100 mil a coiotes para realizar a travessia pelo método conhecido como “cai-cai”. A rota envolveu voos para o México e trechos exaustivos de deserto em vans superlotadas, passando por zonas de conflito como Ciudad Juárez.
Ao cruzar a fronteira, a estratégia era se entregar voluntariamente à patrulha de fronteira (CBP) para solicitar asilo. Mariana recorda com detalhes a detenção na “geladeira”, apelido dado aos centros de detenção americanos devido ao ar-condicionado mantido em temperaturas glaciais, que faziam os detidos perderem a sensibilidade nos dedos.
Após ser liberada com uma ordem para comparecer ao tribunal, Mariana seguiu para Nova Jersey, atraída por uma rede de apoio formada por ex-moradores do bairro Uvaranas. No entanto, o medo de ser enviada de volta ao Brasil a fez faltar às audiências de asilo. A consequência foi uma ordem de deportação imediata registrada em seu nome.
“Hoje, se eu for parada por uma lanterna queimada no automóvel, eles veem essa ordem e sou mandada embora no dia seguinte”, explica. Ela vive o que especialistas chamam de “limbo jurídico”: entrou pela porta da frente da imigração para se entregar, mas hoje foge dela pelos fundos.
Ao lado de sua companheira, a qual é casada, Mariana evita qualquer exposição. O casal LGBTQIA+ restringe demonstrações de carinho em público, não por homofobia local, mas para evitar qualquer denúncia ou atenção policial que resulte em checagem de documentos. A saudade de Ponta Grossa é um peso diário. Mariana sente falta do frio de julho e das caminhadas no Parque Ambiental, mas a vida financeira e afetiva amarrada nos EUA a impede de retornar voluntariamente.
Recentemente, uma operação do Immigration and Customs Enforcement (ICE) em um mercadinho onde ela comprava erva-mate para seu chimarrão a fez abandonar o local. Cinco minutos após sua saída, agentes fecharam as portas e detiveram três imigrantes. Desde então, Mariana é uma “vizinha perfeita”: silenciosa, paga as contas em dia e evita existir para o sistema.
Sua resistência é o silêncio, enquanto aguarda uma reforma migratória que parece nunca chegar.