há 11 horas
Oliveiros Marques

Há momentos em que a política brasileira expõe, sem disfarces, a diferença essencial entre meninos e homens. Homens entendem que instituições não são brinquedos e que o país não pode ser submetido a emoções pessoais, ressentimentos particulares ou birras de ocasião. Meninos, ao contrário, confundem o interesse público com a própria vontade. Foi exatamente isso que se vê quando o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, decide usar o poder de pautar votações como instrumento de retaliação ao País porque seu preferido não fora indicado para o Supremo Tribunal Federal.
A Constituição não prevê que o Senado funcione como extensão dos desejos do seu presidente, tampouco como palco para chantagens institucionais. O papel da Casa é fiscalizar, deliberar e conduzir decisões que impactam diretamente a vida nacional em nome dos interesses do conjunto da população. Quando Alcolumbre trava votações estratégicas - e entre elas projetos que destravam investimentos, modernizam o Estado e fortalecem a economia – ou pauta projetos que desestabilizam as contas públicas ou abrem a porteira para ataques ao meio ambiente, apenas para demonstrar desagrado com a escolha presidencial para o STF, não é apenas uma falha moral: é um desserviço deliberado ao Brasil. Com liberdade de interpretação, é possível dizer tratar-se de atitudes criminosas.
A cena é reveladora de um traço que ainda nos custa caro: a incapacidade de alguns líderes perceberem que ocupam cargos de Estado, e não tronos pessoais. Ao agir movido por mágoa, Alcolumbre reduz a política a um jogo de vaidades. E pior: utiliza a cadeira que ocupa, por delegação dos senadores, como arma para paralisar o avanço do país. A mensagem que transmite é simples e devastadora: se não atende ao meu desejo, o Brasil não anda. Retrocede.
Homens públicos de verdade discordam, negociam, debatem, mas jamais sequestram a agenda nacional por revanche. O Senado já foi comandado por figuras com posições firmes, divergências profundas e egos igualmente robustos - e ainda assim capazes de compreender que a instituição é maior do que suas preferências particulares. Meninos, porém, acreditam que tudo lhes é devido. Confundem contrariedade com ofensa pessoal e o interesse de 200 milhões de brasileiros com a própria frustração.
O episódio expõe uma escolha que o Brasil já não pode mais adiar: queremos instituições maduras ou reféns dos caprichos individuais? Queremos líderes que compreendam o peso histórico de suas funções ou personagens que tratam o país como brinquedo de revanche?
A diferença entre homens e meninos está justamente aí. Homens sabem perder, recompor, seguir adiante e colocar o Brasil acima de si. Meninos fazem birra, travam o andamento da nação e chamam isso de política. Infelizmente, quando a birra está na cadeira da presidência do Senado, não é apenas um capricho - é um atraso para o país inteiro.
Oliveiros Marques é sociólogo, publicitário e comunicador político
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