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Artigo: 'O agronegócio no limite: quem paga a conta da supersafra sem renda', por Josiel Lima

há 19 horas

Josiel Lima

Artigo: 'O agronegócio no limite: quem paga a conta da supersafra sem renda', por Josiel Lima
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O discurso oficial insiste em celebrar recordes de produção, liderança global e protagonismo do agronegócio brasileiro. Mas, longe dos relatórios otimistas, a realidade no campo no início de 2026 é bem menos triunfal. Milho, soja, trigo e leite atravessam uma combinação tóxica de preços em queda, custos elevados e ausência quase total de mecanismos eficazes de proteção de renda. O resultado é um setor produtivo cada vez mais exposto – e perigosamente fragilizado.

Os números desmontam a narrativa de prosperidade. O milho opera abaixo de R$ 68,00 por saca, patamar que não cobre o custo total em grande parte das regiões produtoras. O leite perdeu mais de 14% de valor em 2025, atingindo diretamente pequenos e médios produtores, altamente dependentes de fluxo de caixa contínuo. O trigo enfrenta concorrência direta de importações, com preços internos frequentemente abaixo do custo de produção. E a soja, carro-chefe do agronegócio nacional, recua mesmo com a expectativa do Brasil colher algo em torno de 182 milhões de toneladas e liderando a oferta global.

A causa não é mistério. A safra 2025/26 chega marcada por custos de produção persistentemente altos. Fertilizantes, defensivos, sementes, combustíveis, logística e financiamento continuam pressionando as planilhas. Ao mesmo tempo, o mercado internacional opera sob excesso de oferta. A produção global de soja deve ultrapassar 425 milhões de toneladas, enquanto o milho supera 1,2 bilhão, com estoques confortáveis nos principais países produtores. Com tanta oferta disponível, não há espaço para recuperação consistente de preços no curto prazo.

No Brasil, o problema é agravado por uma comercialização antecipada abaixo da média histórica. Diante de preços pouco atrativos, produtores optam por segurar vendas, apostando em uma reação futura do mercado. A estratégia, compreensível, cobra um preço alto: aumento do endividamento, pressão sobre o capital de giro e maior vulnerabilidade financeira ao longo do ciclo produtivo.

O feijão, menos exposto ao mercado internacional, sofre de outro mal: a falta de rentabilidade desestimula o plantio e reduz áreas, tornando o mercado doméstico mais instável e sensível a choques climáticos e logísticos. Ainda assim, a lógica se repete – custos sobem mais rápido que os preços.

Se o cenário de mercado já é adverso, a política pública adiciona um ingrediente ainda mais preocupante. O seguro rural, principal instrumento de mitigação de riscos climáticos e de renda, cobre apenas 2% a 3% da produção nacional. Em um país sujeito a extremos climáticos cada vez mais frequentes e a ciclos de preços voláteis, essa cobertura é simbólica – quando não irrelevante. Na prática, o produtor brasileiro segue operando sem rede de proteção.

A consequência é clara: todo o risco fica concentrado em quem produz. O Estado comemora exportações, o mercado se beneficia da oferta abundante e o consumidor sente alívio pontual nos preços. Já o produtor rural assume sozinho o custo da ineficiência do sistema. Produz mais, investe mais, se endivida mais – e ganha menos.

O agronegócio brasileiro não enfrenta uma crise de produtividade, mas de modelo. Sem renda previsível, sem seguro robusto e sem instrumentos modernos de gestão de risco, o setor caminha para um ponto de exaustão silenciosa. Ignorar esse sinal pode sair caro. Afinal, não existe segurança alimentar, estabilidade econômica ou liderança global sustentada sobre produtores sistematicamente no prejuízo.

Passou da hora de rever esse modelo, por políticas agrícolas mais consistentes, à altura do que a agropecuária representa como divisas para um Brasil que sonha em conquistar o mundo. O primeiro passo é fazer a lição de casa.

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