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Caso Orelha: A crueldade que chocou o país é um alerta para o que toleramos

Morte de cão comunitário revela falhas na justiça e levanta questão urgente: até onde vai a nossa impunidade?

há 4 horas

Heryvelton Martins

Caso Orelha: A crueldade que chocou o país é um alerta para o que toleramos
Divulgação
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A morte do cão comunitário Orelha, em Santa Catarina, expôs mais do que um ato de crueldade individual: revelou uma ferida aberta na forma como a sociedade brasileira lida com os animais e com a responsabilidade coletiva pela vida que nos cerca. Transformado em símbolo nacional após as agressões que o levaram à eutanásia, Orelha personifica, em um corpo frágil e indefeso, o resultado extremo de uma cultura que ainda tolera, minimiza ou relativiza a violência contra animais.

Orelha não era invisível. Era conhecido, cuidado, protegido por moradores que lhe garantiam alimento, abrigo e atendimento veterinário. Era, portanto, um cão comunitário no sentido pleno do termo: um animal sem tutor individual, mas com muitos responsáveis afetivos e morais. Quando um animal assim é atacado, a agressão não se dirige apenas a ele, mas à própria noção de comunidade. Fere o pacto mínimo de convivência que permite que cidades sejam espaços de cuidado e não de brutalidade.

É justamente por isso que a comoção em torno do caso não deve ser tratada como mero “excesso de sensibilidade” nas redes sociais. Ela expressa uma percepção clara: maus-tratos a animais não são um problema secundário, mas um termômetro da nossa capacidade de empatia, de educação e de respeito às regras mais básicas de civilidade. Uma sociedade que falha em proteger os mais vulneráveis – sejam humanos ou não humanos – revela fragilidades profundas em suas estruturas éticas e institucionais.

Há, ainda, um aspecto jurídico inescapável. O Brasil avançou ao endurecer penas para maus-tratos contra cães e gatos, mas a existência da lei não basta. É preciso que o sistema de justiça funcione, que as investigações sejam levadas a sério, que as responsabilidades sejam apuradas com rigor, inclusive quando envolvem adolescentes. A proteção prevista em lei para crianças e jovens não pode ser confundida com licença para a impunidade. Transparência, responsabilização adequada e medidas socioeducativas eficazes são fundamentais para evitar que o horror se repita.

Ao mesmo tempo, a resposta a casos como o de Orelha não pode se limitar à punição. É indispensável discutir educação e prevenção. A normalização da violência – seja em casa, na escola ou nas ruas – cria terreno fértil para atitudes de crueldade que começam muitas vezes com animais e podem evoluir para outras formas de agressão. O modo como ensinamos crianças e adolescentes a se relacionar com animais diz muito sobre como os preparamos para viver em sociedade. Falar de Orelha é, portanto, falar de políticas públicas, de formação cidadã e de responsabilidade familiar.

Diante disso, qual deve ser o papel de um portal de notícias? Em primeiro lugar, informar com rigor e equilíbrio, sem transformar a dor coletiva em espetáculo. Respeitar o Estatuto da Criança e do Adolescente ao tratar de suspeitos menores de idade, evitar linchamentos digitais e preservar a dignidade de todos os envolvidos não significa suavizar a gravidade do crime. Significa reconhecer que o jornalismo tem compromisso com a verdade e com a justiça, não com a vingança.

Em segundo lugar, cabe à imprensa contextualizar. Explicar o que diz a legislação, quais são as possíveis consequências legais, como o poder público deve agir, qual é o histórico de violência contra animais no país e quais iniciativas sérias existem para combatê-la. Ao dar voz a protetores, entidades, especialistas e comunidade, o jornalismo cumpre a função de ampliar o debate e transformar indignação em pressão social organizada por mudanças concretas.

Por fim, é preciso assumir um posicionamento claro: maus-tratos a animais são inaceitáveis. Neutralidade, nesse caso, significaria relativizar a própria noção de direitos e de dignidade. Portais de notícias comprometidos com o interesse público não podem se omitir diante de violações tão evidentes. Podem – e devem – ser firmes na defesa da vida, sem abrir mão da responsabilidade, da precisão e da ética na apuração.

Orelha não voltará. Mas como contamos sua história pode determinar se ele será lembrado apenas como vítima de um crime brutal ou como um marco na construção de uma sociedade menos tolerante à crueldade e mais comprometida com o cuidado.

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