Publicidade
{}
NotíciasColunistasSobreContatoAnuncie no DP
Revista DPPonto de VistaManhã Total
NotíciasColunistasSobreContatoAnuncie no DPRevista DPPonto de VistaManhã Total
Ponta Grossa

PG usa arquitetura hostil para afastar população de rua do Centro

Mapeamento aponta quase 40 locais com dispositivos que impedem o descanso; especialistas alertam que medida isola pobres em vez de oferecer cuidado

há uma hora

Heryvelton Martins

PG usa arquitetura hostil para afastar população de rua do Centro
Heryvelton Martins / D'Ponta News
Publicidade

A arquitetura hostil é um conjunto de soluções urbanas e arquitetônicas que transforma o espaço em barreira, não em acolhimento. Na definição de Gabriela Barreto, é quando o espaço público é pensado para afastar certas pessoas e incorpora “equipamentos, mobiliários e elementos urbanos que visam repelir a permanência”, com impacto concentrado sobre quem vive maior vulnerabilidade social.​

O fenômeno não é abstrato nem distante: já está materializado no cotidiano do Centro, em dispositivos que desestimulam o descanso e a permanência e mudam a forma de circular e ocupar a cidade. Em levantamento publicada pela UEPG, exemplos em Ponta Grossa incluem intervenções em instituições bancárias, Correios, lojas e até pontos de ônibus sem assentos, o que obriga usuários do transporte coletivo a esperar em pé.​

“Cidade segura” não é cidade cercada

A lógica que costuma justificar essas mudanças é a segurança. O problema, apontado por Gabriela, é que a escolha por barreiras pode produzir o efeito contrário: “uma cidade segura é aquela que tem espaços de circulação e convivência plural”, e estratégias hostis aumentam desigualdade ao impor distâncias sociais e tratar a vulnerabilidade como ameaça.​

Novos pontos de ônibus tem divisorias de metal para evitar que pessoas deitem | Reprodução
Legenda: Novos pontos de ônibus tem divisorias de metal para evitar que pessoas deitem | Reprodução

Quando a arquitetura hostil vira resposta-padrão, a cidade passa a administrar a pobreza pela paisagem: reduz a visibilidade, mas não reduz a vulnerabilidade. O resultado é um Centro menos humano e uma rede de problemas transferida para outros pontos do município, sem política de cuidado proporcional ao tamanho do desafio.​

Parque Ambiental: requalificação, cercas e a disputa pelo acesso

Um dos exemplos mais sensíveis citados por Gabriela aparece justamente em uma área que deveria simbolizar convivência e acesso público: o Parque Ambiental. Segundo ela, requalificações recentes ampliam o cercamento de espaços que antes eram de livre circulação, e ela cita, no Parque, a área da Maria Fumaça, a Estação Arte (atual projeto de “Estação Hub”) e a Estação Saudade como pontos “totalmente cercados”.​

Há, de fato, registros públicos de que a Estação Arte seria cercada por gradil no contexto de reforma e requalificação do espaço. Em paralelo, a Maria Fumaça nº 250 está vinculada ao complexo da Estação Saudade e há iniciativas formais de revitalização, com previsão de investimento e contratação para obras, o que reforça que o debate local envolve tanto preservação e proteção patrimonial quanto como a cidade desenha o acesso e o uso cotidiano desses lugares.

Agência dos Correios recebeu cercas para evitar a presença da população de rua
Legenda: Agência dos Correios recebeu cercas para evitar a presença da população de rua

O ponto central, no entanto, é a pergunta urbanística que o cercamento costuma evitar: como proteger patrimônio e garantir segurança sem transformar áreas de convivência em espaços de exclusão, com acesso filtrado por grades e controle? Em vez de desenho universal, iluminação adequada e programação cultural contínua, a resposta que aparece mais rápido — e mais visível — é o bloqueio.

Centro “valorizado”, permanência seletiva

A arquitetura hostil também avança no privado, especialmente onde a cidade concentra consumo e circulação de públicos com maior renda. Gabriela afirma que “quanto maior o fluxo de pessoas com maior poder aquisitivo, maior o uso desses elementos”, citando bares e prédios comerciais no entorno da Catedral.​

Essa dinâmica cria uma espécie de “urbanismo de vitrine”: calçadas e fachadas se tornam filtros, e o recado é dado sem placa — você pode passar, mas não pode ficar. Na prática, isso encurta a permanência de quem depende do espaço público para descansar, se proteger da chuva, pedir ajuda ou simplesmente existir na cidade.​

Do Centro à periferia: empurrar não é cuidar

O efeito direto da arquitetura hostil costuma ser o deslocamento. Quando bancos recebem divisórias e marquises ganham obstáculos, a permanência migra para onde há menos barreiras, menos fiscalização e menos fluxo, geralmente fora do Centro.​

O D'Ponta News entrou em contato com a Câmara de Ponta Grossa para entender como o Poder Público entende a arquitetura hostil na cidade, mas a Casa de Leis não tem nenhum projeto aprovado sobre o assunto, nem mesmo debates recentes sobre o tema. Já em conversa com funcionários da Prefeitura, a justificativa das cercas e proteções é 'segurança'.

Esse movimento amplia riscos e enfraquece vínculos, porque distância também é exclusão: afastar alguém do Centro pode significar afastar de serviços, alimentação, apoio comunitário, oportunidades de trabalho informal e equipamentos públicos que se concentram nas regiões centrais. A cidade “resolve” o incômodo visual, mas deixa a vulnerabilidade mais invisível e, muitas vezes, mais perigosa.​

Plano Diretor fala em requalificar

A revisão do planejamento urbano do município trata de diretrizes e propostas para diferentes áreas, incluindo ações voltadas à requalificação e dinamização do Centro. O Relatório de Diretrizes e Propostas do Plano Diretor menciona, por exemplo, a “implantação de Projeto de Requalificação da Área Central”, em um conjunto de ações urbanísticas.​

O problema é que, sem um tratamento explícito do tema — com princípios de desenho universal, vedação objetiva de soluções excludentes no mobiliário urbano e critérios para intervenções em espaços de uso público — o planejamento corre o risco de permitir que “requalificar” vire sinônimo de controlar e cercar. Na prática, o debate sobre inclusão fica no discurso, e a cidade continua mudando pelo detalhe: um gradil aqui, um banco dividido ali, uma parada sem assento acolá.

Para enfrentar esse processo, Gabriela criou um formulário de participação social para mapear pontos com arquitetura hostil em Ponta Grossa, para dar escala ao que, muitas vezes, é tratado como caso isolado. Segundo o relato da própria arquiteta ao D’Ponta News, o mapeamento já reúne quase 40 pontos identificados na cidade.

Clique aqui e participe.

Qual a solução?

Se não fosse a falta de caminhos reais e permanentes para tirar pessoas da rua, a cidade não estaria recorrendo a soluções de “repulsão” como bancos divididos, gradis e barreiras: arquitetura hostil surge como atalho urbano para esconder a vulnerabilidade, quando o que deveria existir é política pública de moradia, saúde, renda e cuidado contínuo.

Em Ponta Grossa, a Prefeitura afirma atuar por meio da Fundação de Assistência Social (FASPG), com o Serviço Especializado de Abordagem Social — que faz busca ativa e atende chamados, oferecendo orientação e encaminhamento para a rede socioassistencial — e com serviços como o Centro POP, voltado ao atendimento diurno com higiene, alimentação, escuta técnica e encaminhamentos, além de acolhimento noturno com estrutura de pernoite, alimentação e kits de higiene, inclusive com previsão de abrigo para animais de estimação.

Ainda assim, enquanto a resposta principal continuar sendo afastar e cercar, e não garantir saída efetiva das ruas com dignidade, o município seguirá apenas deslocando o problema no mapa — e perdendo a chance de transformar requalificação urbana em inclusão.

Compartilhe:

Leia também

Seis colégios de Ponta Grossa e região ganham nova nomenclaturaMudança oficializada pela SEED abrange instituições que aderiram ao programa 'Paraná Integral'; colégio em PG também encerra curso técnico
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
{ }
Rua Ricardo Lustosa Ribas, 154 Vila Estrela, Ponta Grossa - PR CEP: 84.040-140

Institucional

  • Notícias
  • Colunistas
  • Sobre
  • Contato
  • Anuncie no DP
  • Revista DP
  • Ponto de Vista
  • Manhã Total

Categorias

Redes Sociais

Hospedado por CloudFlash
Desenvolvido por Flize Tecnologia