REVISTA – Embora tenha nascido em Maringá, o senador Sérgio Moro (União) é filho de ponta-grossenses e faz questão de defender os interesses da cidade em Brasília. Ele se formou em direito pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) em 1995 e fez mestrado e doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde também lecionou direito processual penal. Especializado em lavagem de dinheiro e crimes financeiros, Moro ficou conhecido por sua atuação como juiz federal e foi responsável pelo julgamento do escândalo do Banestado, que envolveu remessas ilegais de divisas, e da Operação Farol da Colina, que investigou 24 bilhões de dólares movimentados de forma irregular para fora do país. O seu nome ganhou notoriedade entre 2014 e 2018, quando comandou o julgamento dos crimes identificados na Operação Lava Jato, envolvendo grande número de políticos, empreiteiros e empresas, como a Petrobras e a Odebrecht. Em 2019, Moro entrou para a vida pública e assumiu o cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, deixando o cargo um ano mais tarde. Nas eleições de 2022, foi eleito senador pelo Paraná com 1,9 milhão de votos. Nessa entrevista exclusiva, ele fala sobre os desafios enfrentados atualmente no Brasil, admite a possibilidade de se candidatar ao Governo do Estado e avalia os julgamentos dos acusados de invasão e depredação do patrimônio público nas manifestações de 8 de janeiro.
O senhor é uma das principais lideranças da direita e tem se destacado comentando os mais diversos assuntos relacionados ao país. Como o senhor avalia o terceiro mandato do presidente Lula?
O Brasil está numa situação difícil. Nós estamos vendo aí um problema nas contas públicas muito grande, que tem gerado um descontrole inflacionário e de juros. O governo expandiu os gastos e não fez a lição de casa cortando na carne. Nós temos 39 ministérios, com viagens internacionais a todo momento e hotéis de luxo. Você lidera pelo exemplo, não pela palavra. Além disso, você não vê do governo uma proposta de reforma estruturante, a proposta que ele apresenta é cobrar mais impostos. Para mim, é muito simples: eu sou contra cobrar mais impostos e qualquer iniciativa do governo Lula de aumentar impostos vai ter o meu voto contrário. Inclusive, a meu ver, tinha que reduzir impostos estaduais também, para termos uma maior competitividade dentro dos estados e deixar mais atrativo investir no Paraná em todos os aspectos.
O senhor não acha que deveriam ser cobrados mais impostos de quem pode pagar mais?
Eu não vejo dessa forma. Por exemplo, eles aumentaram o IOF, que é o Imposto sobre Operações Financeiras. Quando você aumenta o IOF, você está encarecendo o crédito. Então, o financiamento para uma reforma ou para a safra também acaba sendo afetado por essa postura. A classe média se sente esmagada pela cobrança enorme de impostos no nosso país.
“No Senado, nós legislamos para o país inteiro, mas também temos um olho para as questões que são importantes para o nosso estado” / Foto: Reprodução
Quais são, na visão do senhor, as questões mais urgentes enfrentadas pelo país hoje e o que acha que deveria ser feito para resolvê-las?
Na eleição de 2022 se falava muito numa agenda de reformas estruturais para o país, mas isso sumiu. O principal ponto é retomar essa agenda. Hoje, você tem uma taxa de juros básica de 14,75%, que é resultado do descontrole fiscal do Estado. Se você melhorar as contas, você vai economizar dinheiro aí também, porque vai poder reduzir a taxa de juros, que é o serviço da dívida. Mas essa taxa de juros afeta não só as contas do governo, mas as contas das pessoas que vão se endividando. Nós entramos num ciclo de deterioração fiscal que, se não for feito nada, vai resultar numa crise da dívida. Aí o custo para arrumar vai ficando cada vez pior.
O que o senhor espera das eleições presidenciais de 2026? Qual deve ser, na opinião do senhor, o grande nome da direita no pleito?
É muito difícil fazer essa previsão. Há uma deterioração da popularidade do Lula e do atual governo, porque está num rumo desastroso para o país e isso vai abrindo espaço para a oposição. Bolsonaro é o nome mais forte, mas existe essa questão da inelegibilidade, que ninguém sabe se vai se recuperar [a elegibilidade] ou não. E aí se apresentam outros candidatos, como o governador Tarcísio de Freitas, de São Paulo, o governador Ronaldo Caiado, de Goiás, o governador Romeu Zema, de Minas Gerais, e o próprio governador Ratinho Júnior, que está se colocando aqui no Paraná como um possível candidato.
Trazendo a discussão para o Paraná, como o senhor avalia a situação do estado?
Nós temos um setor privado pujante, um estado que nos orgulha. Somos o maior produtor de cevada, o maior produtor de frango, o maior produtor de muçarela e somos o segundo maior produtor de leite. O nosso agronegócio acaba irrigando o restante da nossa economia, que vai se diversificando. A minha visão sobre o Paraná é que nós temos de ser os primeiros em tudo, e, por exemplo, em segurança pública ainda não somos. Não dá para aceitar ficarmos em terceiro lugar, nem em último lugar, na região sul.
“Eu permaneço o mesmo naquilo que eu acredito. A forma de atuar do juiz e do político é muito diferente, mas os meus princípios e os meus valores são os mesmos desde sempre” / Foto: Reprodução
Esse é um dos principais desafios do Paraná hoje, na sua visão?
Com certeza. Inclusive, eu estava acompanhando agora os índices de segurança pública do Paraná e, se formos comparar, por exemplo, com a média do país, nós estamos muito bem. Nesse começo de ano, como no ano passado, o recorde de assassinatos por 100 mil habitantes, ou mesmo em número absoluto, continua sendo da Bahia, que é um estado devastado pela insegurança pública. O Paraná está bem melhor. Mas veja também que estamos está atrás nesses indicadores de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.
Como está sendo a sua participação no Senado para ajudar o estado nessas demandas?
Esse é o trabalho aí que tem de ser feito. Lá no Senado, nós legislamos para o país inteiro, mas também temos um olho para as questões que são importantes para o nosso estado. Por exemplo, eu estou envolvido num projeto sobre alíquotas para importação de placas solares, porque temos algumas empresas produtoras aqui dentro do estado e temos que equacionar o interesse delas com o interesse daqueles outros que querem reduzir a alíquota de importação. Esses dias eu relatei um projeto, a meu ver, também importante. Nós aprovamos a suspensão de demarcação de terras indígenas em Santa Catarina, que foram feitas violando a Lei do Marco Temporal. Por que isso é importante? Porque o Paraná tem terras na mesma situação, especialmente em Terra Roxa e Guaíra.
Todas as pesquisas colocam o senhor em primeiro lugar numa eleição para o Governo do Estado. Essa já é uma decisão sua ou são só as pesquisas que estão falando?
Vou responder com muita sinceramente que provavelmente serei candidato. Mas esse anúncio e o bater do martelo serão realmente só mais adiante. No momento, existem outras prioridades para tratar este ano e eu tenho feito o meu trabalho no Senado. Acho que eu estou fazendo um bom trabalho lá e isso se reflete inclusive nessas pesquisas. Então, não tem necessidade de anunciar agora uma candidatura, mas existe essa probabilidade.
O presidente Lula foi julgado pelo senhor dentro da primeira instância e o ex-presidente Bolsonaro agora está sendo julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Eles não deveriam enfrentar processos semelhantes?
Essa é a crítica que eu tenho feito e, na minha opinião, o caso do Bolsonaro deveria estar na primeira instância. Existia um entendimento, que vinha lá desde a década de 2000, que se você cometer um crime durante o exercício do mandato, a competência é do STF. Quando encerra o mandato, vai para a primeira instância e perde aquilo que é chamado de foro privilegiado. No ano passado, eles mudaram esse entendimento num caso específico que envolvia um senador de outro estado e me pareceu que foi uma jurisprudência de ocasião, porque eles sabiam que teriam o caso do 8 de janeiro e o caso do Bolsonaro. A meu ver, foi um grande retrocesso e fica uma relação não muito saudável entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.
“Não me convence que aquelas pessoas envolvidas nos atos do 8 de janeiro merecem de 14 anos a 17 anos de prisão. Não é uma questão de política, é uma questão de justiça” / Foto: Reprodução
Recentemente, o Brasil inteiro acompanhou os depoimentos em relação ao processo do 8 de janeiro, quando apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram o Congresso Nacional e o STF. Se o senhor fosse o juiz, o senhor prenderia Bolsonaro?
Não me cabe ficar avaliando o processo do Bolsonaro. Eu tenho a opinião de que esse julgamento ficou muito contaminado politicamente e o pessoal diz que o resultado já é certo: ele vai ser condenado. Por isso eu tenho dito, até em respeito ao Supremo, que a melhor coisa que eles poderiam fazer era encaminhar o caso para a primeira instância e deixar para um juiz profissional. Com o Lula foi assim, por que não pode ser com o Bolsonaro? Essa politização não me parece apropriada.
O senhor acredita que Bolsonaro tem responsabilidade pelo que aconteceu no 8 de janeiro?
Não tem nenhuma prova de que a manifestação foi orquestrada e nenhuma evidência foi apresentada até agora. Inclusive, o próprio delator, Mauro Cid, nega que o Bolsonaro tenha qualquer relação com aquele fato. Eu não sei se ele está falando a verdade ou não, mas se estamos acreditando na palavra dele para construir a acusação, então não pode considerar que a responsabilidade pelo 8 de janeiro é do Bolsonaro. O 8 de janeiro, para mim, foi uma multidão que se excedeu e parte dela invadiu e depredou o patrimônio público. Essas pessoas podiam até querer que houvesse um golpe, mas não existe nenhuma prova de que tinha alguma coisa estruturada para que isso acontecesse.
Na sua opinião, as pessoas que foram presas pelo 8 de janeiro estão recebendo uma condenação justa?
Olha, você está falando com alguém que foi muito rigoroso como juiz e botava bandido que roubava o erário na cadeia, mas não me convence que aquelas pessoas merecem de 14 anos a 17 anos de prisão. Eu tive a oportunidade de encontrar várias dessas pessoas na cadeia e conheci uma senhorinha de 67 anos que nunca fez nada de errado na vida e está presa há dois anos preventivamente. Não é uma questão de política, é uma questão de justiça.
O que o senhor imagina que seria a pena ideal para essas pessoas?
Uma prestação de serviço de um ano e, se fosse pensar em prisão, no máximo, uma prisão curta de três meses. Independente de política, toda pessoa é um fim em si mesmo. Essas pessoas não foram responsáveis pelo golpe militar de 64 nem podem ser usadas para dar o exemplo. A meu ver, é uma grande justiça que deveria ser reparada e tenho sido um crítico disso. Se botar na mesa a anistia ou um projeto de redução de pena significativa, pode ter certeza de que eu voto a favor.
“Não vemos do Governo Federal uma proposta de reforma estruturante; a proposta que ele apresenta é cobrar mais impostos. A classe média se sente esmagada pela cobrança enorme de impostos no nosso país” / Foto: Reprodução
Nesse período que o senhor deixou o judiciário e ingressou na vida pública, o senhor já se decepcionou com a política?
Para mim, tem sido um aprendizado. Eu fui juiz por 22 anos, tinha orgulho da minha carreira e do que eu construí, mas a mudança também é muito positiva na vida. Se houve decepção? Olha, eu acho que sim, né? O país está numa situação muito ruim. Na verdade, eu imaginava que nós estávamos numa agenda de reformas importantes para o país, mas isso não avançou. A luta pela integridade e o combate à corrupção também sofreram um grande retrocesso por conta da política e claro que isso nos desanima. Mas não adianta ficar chorando nos cantos, nós temos que trabalhar pelo que acreditamos.
E no que o senhor mudou durante esse tempo?
Eu permaneço o mesmo naquilo que eu acredito. A forma de atuar do juiz e do político é muito diferente, mas os meus princípios e os meus valores são os mesmos desde sempre. É coisa que eu aprendi com meus pais, que, aliás, são ponta-grossenses. Dentro da política isso pode gerar mais dificuldade, mas me corromper? Jamais.
Texto publicado originalmente na edição 308 da Revista D’Ponta