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Revista D'Ponta

Artigo: O propósito como eixo do bem-estar, por Andressa C. Baggio Torres

“Propósito” é a palavra da moda. Mas você sabe qual é realmente o seu significado e a importância desse conceito para uma vida melhor? Em artigo exclusivo para a revista D’Ponta, a médica Andressa C. Baggio Torres, pós-graduada em psiquiatria, destrincha o sentido e as implicações do propósito para a vida humana

há 7 horas

Andressa C. Baggio Torres

Artigo: O propósito como eixo do bem-estar, por Andressa C. Baggio Torres
FOTO: REPRODUÇÃO
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Em meio às pressões do cotidiano, às metas profissionais, às responsabilidades familiares e à correria das rotinas modernas, acabamos vivendo no “piloto automático”. Cumprimos nossas obrigações diárias, como trabalho, família e estudos, mas deixamos de nos lembrar do motivo por que estamos fazendo tais coisas. O que nos move? O que dá sentido aos nossos dias? Em que direção estamos indo? A resposta a todos esses questionamentos podemos chamar de propósito.

Ter um propósito não significa, necessariamente, ter grandes respostas ou planos grandiosos. Significa, antes de tudo, reconhecer que a vida tem uma direção — ainda que em construção. É entender por que fazemos o que fazemos e o que, no fundo, nos importa de verdade. O propósito atua como um eixo silencioso, mas poderoso, que nos direciona, dá coerência às nossas escolhas e nos ajuda a atravessar os momentos de crise com resiliência.

A história da psiquiatria e da psicologia sempre foi atravessada por essa busca de sentido. O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, fundador da Logoterapia e Análise Existencial, desenvolveu a sua abordagem justamente a partir da constatação de que o ser humano pode suportar problemas e dificuldades, desde que perceba um porquê em sua existência. Ele afirmava: “O homem que tem um ‘porquê’ para viver pode suportar quase qualquer ‘como’.”

Para Frankl, devemos sempre nos fazer três questionamentos: Se não eu, quem? Se não agora, quando? Se só por mim mesmo, quem sou eu? Essas três indagações devem nortear a nossa existência para uma vida com mais valor e sentido. Existem situações que fazem parte da nossa trajetória nesse mundo e que por vezes nos levam a não mais conseguir enxergar um sentido em tudo o que fazemos. Ter a certeza de que a nossa vida nos transcende, que estamos aqui por algo maior, nos faz olhar a vida com olhos mais atentos e esperançosos. O sentido da vida não é algo teórico ou abstrato, mas uma experiência concreta, que pode ser encontrada até mesmo nas situações mais extremas de dor, perda ou sofrimento.

Diante das grandes dificuldades, quando o nosso plano de vida é mudado por forças alheias às nossas decisões, somos chamados a nos questionar quem somos e o porquê de estarmos nesse mundo. Qual é o nosso propósito? Conseguir responder a esses questionamentos faz com que sigamos a vida. A escolha entre permanecer ou desistir passa, invariavelmente, por entender a nossa função nesse mundo. Essa liberdade interior — de se posicionar diante da vida — é inalienável. E, justamente por isso, representa um dos maiores recursos de saúde emocional de que dispomos.

Segundo Frankl, “tudo pode ser tirado de um homem, exceto uma coisa: a última das liberdades humanas – escolher a sua atitude em qualquer conjunto de circunstâncias, escolher o seu próprio caminho […] quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.” Em outras palavras, mesmo quando tudo parece fora de controle, ainda nos resta a liberdade de escolher como reagir.

Mas é importante entender que propósito não é sinônimo de missão extraordinária ou feitos heroicos. Ele pode se manifestar nas pequenas escolhas do dia a dia: cuidar de alguém com carinho, exercer uma profissão com ética, educar com presença, servir à comunidade, cultivar uma relação com significado, buscar. O propósito é pessoal, subjetivo e dinâmico — muda com o tempo, amadurece conosco e se transforma conforme nossos valores e experiências se expandem.

Encontrar propósito exige pausa e escuta. Não se trata de uma descoberta repentina, mas de um processo contínuo de reflexão e autoconhecimento. Perguntas simples, mas profundas, podem nos conduzir a esse reencontro: O que realmente importa para mim? O que me faz sentir vivo? O que gostaria de deixar como legado? Em um mundo que valoriza o fazer constante e a produtividade acima de tudo, essas perguntas nem sempre encontram espaço. Mas são justamente elas que nos reconectam com o nosso ser — e, por consequência, com uma vida mais plena.

Nos relacionamentos, o propósito dá sustentação à empatia, à escuta e à presença genuína. No ambiente de trabalho, traz clareza, engajamento e maior alinhamento entre esforço e realização. Quando sabemos por que fazemos o que fazemos, conseguimos lidar melhor com frustrações, desenvolver resiliência e manter o foco, mesmo diante de desafios. Já na saúde, o propósito tem um impacto direto e mensurável. Pesquisas indicam que pessoas que sentem que as suas vidas têm sentido adotam com mais facilidade hábitos saudáveis, aderem melhor a tratamentos e apresentam níveis mais altos de bem-estar emocional.

Viver com propósito é, também, viver com presença. É perceber que cada gesto, cada palavra, cada escolha podem ser expressões de nossos valores mais profundos. Quando conseguimos alinhar o que pensamos, sentimos e fazemos, experimentamos uma sensação de integridade — um estado de coerência interna que contribui para a saúde mental e emocional de forma duradoura.

Em tempos de pressa, distração e excesso de estímulos, reencontrar o propósito pode ser um verdadeiro antídoto contra a superficialidade e o vazio. Ele não resolve todos os problemas, mas oferece um sentido para enfrentá-los. Ajuda a priorizar o que realmente importa e a reconhecer que, embora não tenhamos controle sobre tudo, temos responsabilidade sobre como escolhemos viver.

No fim das contas, cuidar da saúde não é apenas manter o corpo em funcionamento — é nutrir também a mente e o coração. E talvez uma das formas mais eficazes de fazer isso seja justamente por meio da busca (ou redescoberta) do propósito. Afinal, é nesse espaço de sentido que nasce a motivação verdadeira, a esperança renovada e a capacidade de construir uma vida com mais conexão, significado e bem-estar.

Andressa C. Baggio Torres é médica formada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com pós-graduação em psiquiatria

Conteúdo publicado originalmente na edição 310 (nov) da revista D'Ponta

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