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Revista D'Ponta

Dinheiro traz felicidade? Duas psicólogas e dois filósofos de PG respondem a essa questão milenar

“Se dinheiro não traz felicidade, me dá o seu e seja feliz”, diz um divertido meme das redes sociais. Mas será que dinheiro é garantia de vida feliz? O que realmente conta quando o assunto é uma existência repleta de bem-estar? Nesta matéria exclusiva da revista D'Ponta e do portal D'Ponta News, duas psicólogas e dois filósofos de Ponta Grossa respondem a essa questão milenar e debatem o papel do dindim na vida humana

há 2 dias

Edilson Kernicki

Dinheiro traz felicidade? Duas psicólogas e dois filósofos de PG respondem a essa questão milenar
FOTO: REPRODUÇÃO
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Há quem não hesite em dizer que “dinheiro não traz felicidade, mas paga as contas” ou que “se dinheiro não traz felicidade, me dá o seu e seja feliz”. Mas será que é isso mesmo? Afinal, por que condicionamos dinheiro à felicidade? Conforto e luxo estão no mesmo patamar?

Se uma pessoa consegue ter uma vida digna e confortável com um valor determinado passar a receber cinco vezes esse valor, pode adquirir hábitos de consumo que vão fazer esse valor multiplicado se tornar insuficiente e despertar a insatisfação? Até que ponto a comparação com o estilo de vida de influenciadores e celebridades têm afetado os nossos parâmetros sobre o que é ser feliz e realizado?

Desde a transição do estilo nômade para o sedentário, com o desenvolvimento da agricultura e a domesticação de animais, a humanidade passou a sentir necessidade de conforto e a reparar no seu semelhante e, com a percepção de necessidades individuais, surgiram as trocas diretas (o escambo) de objetos aos quais se atribuiu valor, como conchas e sementes de cacau. Esse sistema deu origem a vocábulos que usamos até hoje, como “salário” – o pagamento era feito com sal, na antiguidade.

Segundo a Casa da Moeda, o dinheiro como o conhecemos surgiu no século VII a.C., quando foram cunhadas as primeiras moedas na Lídia (atual Turquia): os signos monetários eram também valorizados pela nobreza dos metais empregados, como ouro e prata. Com o passar do tempo, ouro e prata foram substituídos por metais menos raros ou ligas metálicas, mas as moedas preservam os caráter simbólico e os atributos de expressão cultural e valor monetário – ainda que boa parte das transações financeiras hoje sejam digitais.

A noção de valor financeiro é quase tão antiga quanto a de sociedade, mas o luxo e a extravagância eram reservados a poucos privilegiados – como faraós, imperadores e equivalentes, e as castas da nobreza que os rodeavam. Desde que Luís XIV, imperador da França, estabeleceu conceitos de luxo e moda como estratégia de poder através do espetáculo, com a imposição de regras rígidas sobre o vestuário, fez da corte um modelo de bom gosto a ser perseguido e firmou Paris como capital da moda. Hoje, esse ideal foi transferido ao culto às celebridades, de quem muitas pessoas aspiram poder copiar o estilo de vida, ao atrelar ao consumo o ideal de felicidade.

Consultamos a opinião de psicólogos e filósofos de Ponta Grossa para tentar compreender se há, de fato, uma relação entre dinheiro e felicidade. Eles responderam à seguinte pergunta: “Para alguns, o dinheiro é o principal ingrediente de uma vida feliz. Para outros, é apenas um dos fatores que contribuem para a felicidade. Qual é a sua opinião a respeito? Que importância você atribui ao dinheiro na equação para uma vida feliz? Você acredita que a busca incessante por dinheiro também pode ser uma fonte de infelicidade?”

EVIDÊNCIAS NÃO CONFIRMAM

“Um estudo realizado pela Universidade de Harvard mostrou que as pessoas com os maiores índices de felicidade eram aquelas que conseguiram, ao longo da vida, nutrir, desenvolver e manter relacionamentos verdadeiros e significativos. Também comprovou que elas eram mais saudáveis e que relacionamentos saudáveis podem prevenir doenças a longo prazo.

Na mesma linha de pensamento, a médica e escritora brasileira Ana Claudia Quintana Arantes, em seu livro ‘A morte é um dia que vale a pena viver’, relata que os maiores arrependimentos das pessoas próximas da morte se relacionam a escolhas para agradar aos outros, não demonstrar sentimentos, trabalhar demais, não passar tempo com pessoas que amam e que isso, sim, se tivessem realizado, as teria feito mais felizes.

No Butão, foi criado o FIB, índice que mede a felicidade interna bruta ao priorizar o bem-estar em detrimento do crescimento econômico.

Curioso mesmo é que nenhum desses estudos relaciona ou cita o dinheiro como item de felicidade. O poder aquisitivo das pessoas não as impede de adoecer, seja mental ou fisicamente. O dinheiro, em um mundo capitalista, é importante e traz oportunidades para escolhas e condições de vida melhores, como moradia, alimentação, estudos, opções de lazer, mas não é capaz de ‘comprar’ felicidade. A felicidade mora no simples, em vincular metas e valores na vida, praticar atos de bondade, levar uma vida mais consciente, valorizar os pontos fortes de si mesmo, praticar a gratidão e o perdão, enriquecer conexões com as pessoas e refletir permanentemente sobre a razão de viver e existir. Só assim o dinheiro fará diferença, mas não será o ponto principal”

Foto: Divulgação
Legenda: Foto: Divulgação

Andresa Ribeiro de Oliveira é psicóloga da linha Terapia Cognitiva Comportamental, especialista em Neuropsicologia e docente do curso de Psicologia da Faculdade Sant’Ana

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SÓ SE FOR BEM USADO

“A vida prática nos impõe desafios diários. A rotina tensa e intensa para darmos conta dos compromissos, estudos, trabalhos e deslocamentos, nos leva a uma vida que exige muitos sacrifícios e abstinências. Quando nos comparamos com alguém que transmite a imagem de uma vida saudável e equilibrada, capaz de cultivar boas relações com as pessoas e com a natureza, precipitadamente deduzimos que a vida daquela pessoa está resolvida porque ela tem dinheiro. A imagem controversa imediata é a de que, se tivermos dinheiro, venceremos as renúncias involuntárias e poderemos ser felizes.

Ora, felicidade e dinheiro seria uma combinação perfeita se esses elementos fossem compreendidos nos seus significados e finalidades. A ideia de felicidade, do grego ‘eudaimonia’, precisa ser entendida como ‘bom termo’, isto é, a manifestação de uma vida que busca se posicionar com equilíbrio e prudência em relação ao mundo. Felicidade não diz respeito a alegria efêmera e ao entusiasmo ingênuo: isso até o dinheiro é capaz de comprar. Felicidade é um ato antropológico, não um ato econômico.

O uso racional do dinheiro possibilita uma vida feliz. Em si mesmo, ele não garante felicidade, e pode até provocar muita tristeza, disputas e guerras. Por dinheiro, o ser humano é capaz de manifestar o que há de mais selvagem e instintivo em si mesmo. Dinheiro sem razão prática torna o ser humano infeliz. O uso do dinheiro para o bem, para a solidariedade e para a amizade resulta numa vida feliz. A intencionalidade ética no bom uso do dinheiro é que gera felicidade”

Foto: Divulgação
Legenda: Foto: Divulgação

Carlos Willians Jaques Morais é filósofo e professor associado do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Ponta Grossa

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A BUSCA INCESSANTE POR "MAIS"

“A relação entre dinheiro e felicidade é complexa. É inegável que a falta de recursos compromete a qualidade de vida e pode dificultar o bem-estar. Entretanto, ter dinheiro não é sinônimo de ser feliz. Sêneca já alertava que nos tornamos escravos do que tememos perder, e o apego excessivo à riqueza é um bom exemplo disso. A ganância, muitas vezes alimentada pela cultura do consumo, cria uma busca incessante por ‘mais’, gerando frustração e insatisfação.

A felicidade, por outro lado, é um sentimento efêmero e subjetivo: manifesta-se em um abraço, num sorriso, num momento de fé ou de autoconhecimento. O dinheiro pode facilitar experiências que despertam felicidade, como uma viagem, mas não é capaz de comprá-la. Afinal, se tudo estivesse sempre ao nosso alcance, tais momentos perderiam o encanto.

Portanto, o dinheiro pode abrir portas, mas a verdadeira felicidade nasce das conexões humanas, da gratidão e da capacidade de reconhecer beleza nas pequenas coisas da vida”

Foto: Divulgação
Legenda: Foto: Divulgação

Claudia de Mello Krzsynski é psicóloga clínica

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MÚLTIPLAS FORMAS DE SER FELIZ

“Ninguém encontra a resposta certa fazendo a pergunta errada. E talvez a pergunta correta não seja ‘o dinheiro traz felicidade?’, mas ‘qual é o seu referencial de felicidade?’ O tema da felicidade atravessa toda a história da filosofia: para Aristóteles, ela residia na realização plena da vida; para Epicuro, consistia na ausência de dores e perturbações; já Arthur Schopenhauer, no século XIX, via a existência como sofrimento, pois o ser humano parece incapaz de apreciar a própria vida sem projetar nos desejos uma idealização de felicidade.

Ainda que nenhum desses pensadores tenha encerrado o debate, é possível compreender que o ponto mais relevante dessa discussão não está em definir um caminho específico — dinheiro, status, bens materiais ou títulos — como garantia da felicidade, mas em reconhecer que existem múltiplas formas de viver e de se sentir bem consigo mesmo e com os outros. Afinal, quem não sabe ser feliz na simplicidade tampouco o será na abundância, porém viverá a ilusão. Como escreveu Henry David Thoreau, ‘a riqueza de um homem pode ser medida pela quantidade de coisas das quais ele pode abrir mão’”

Foto: Divulgação
Legenda: Foto: Divulgação

Yuri Sócrates Saleh Hichmeh é filósofo, historiador, doutor em Filosofia Japonesa do Século XVII, palestrante, professor e coordenador pedagógico do Colégio Sepam

Conteúdo publicado originalmente na edição 310 da revista D'Ponta

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