há um dia
Michelle de Geus

Sua melhor sensação é um corpo saudável. É o que garante o médico nutrólogo Paulo Lara, especialista em emagrecimento, hipertrofia e qualidade de vida. Nascido em Itapeva (SP), ele se mudou para Curitiba aos 18 anos em busca do sonho de se tornar médico. Após seis anos da faculdade de Medicina pela PUC-PR e duas pós-graduações na área de nutrologia, ele se tornou uma das maiores autoridades em emagrecimento do país. Atualmente, atende pacientes em Curitiba e Ponta Grossa, onde possui clínica.
Com mais de 70 mil seguidores nas redes sociais, Lara se destaca pela abordagem individualizada e pelo olhar abrangente para a saúde. Mais do que dietas e planos alimentares personalizados, ele ajuda os pacientes a fazerem escolhas alimentares conscientes, gerando resultados duradouros. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre os principais erros que as pessoas comentem quando tentam perder peso, o perigo das dietas restritivas, os riscos das injeções para emagrecer e a importância da musculação para a qualidade de vida.
Um dos focos do seu trabalho é o emagrecimento. Com base na sua experiência, quais são os erros mais comuns que as pessoas cometem quando o assunto é emagrecimento?
Um dos principais erros é as pessoas acharem que é fácil emagrecer. Na verdade, o emagrecimento é um processo longo, difícil e complexo. Eu vejo que muita gente fala que para emagrecer é só comer menos. Realmente, a alimentação é responsável por uma grande parte do emagrecimento, mas esse processo abrange muitas outras coisas. Por exemplo, por que a pessoa está comendo do jeito que ela está comendo? Às vezes, tem uma ansiedade ou uma depressão atrelada, a pessoa não está dormindo bem ou tem algum hormônio desregulado.
Qual é, na visão do senhor, o segredo para perder peso?
A primeira coisa que precisamos saber para a pessoa conseguir emagrecer é o quanto de energia o corpo dela gasta, porque a partir disso nós conseguimos determinar quantas calorias ela deve consumir. Fazer dietas da moda ou regimes milagrosos é dar um tiro no escuro. Provavelmente você vai conseguir perder peso, mas pode perder muita massa muscular e não vai aguentar fazer essa dieta por um longo período. E, quando você não aguentar mais, a compulsão alimentar virá com tudo e o seu peso ficará maior do que era antes. Se você vai em um profissional que sabe o que está fazendo, a chance de você emagrecer e manter o peso é muito maior.

Hoje se costuma falar que os obesos devem se aceitar como são e que a obesidade não é um problema assim tão grave. Como você avalia esse discurso e quais são os riscos que ele representa?
Nós temos de entender que a obesidade é uma doença e está relacionada ao aumento de vários tipos de câncer, do risco de infarto e de AVC. Em relação à saúde, a perda de peso é muito importante. Hoje, existe um critério chamado de obesidade controlada, que é a pessoa emagrecer 20% do peso e manter. Ou seja, nós não esperamos que um paciente que pesa 140 quilos volte a ter 70 quilos, mas, se ele baixar para 100 quilos, a saúde dele já pode melhorar muito.
As canetas para emagrecer estão na moda. Quais são os benefícios e os riscos desses produtos?
São medicamentos muito recentes e, depois de anos, podem começar a aparecer vários problemas. Nós temos visto, principalmente com a semaglutida, que é o composto do Ozempic, casos de perda de visão e de hepatite. Então é algo perigoso. Além disso, muitas vezes ele faz a pessoa perder bastante massa muscular, fazendo com que ela fique com aquele aspecto de doente. O que nós precisamos eliminar é a gordura, não a massa muscular. E, se você sair dando tiro no escuro, achando que é só parar de comer, a chance de você estar fazendo alguma coisa errada é grande. Por isso a importância de conversar com o médico e fazer uma análise de bioimpedância [exame que mede a composição corporal e percentual de gordura] para fazer o tratamento correto.
Essas canetas resolvem definitivamente o problema da obesidade?
Eu diria que hoje é o melhor tratamento clínico e, inclusive, eu indico para vários pacientes. Mas ele é um caminho, não é a solução. Essas canetas tendem a tirar o apetite, só que isso é um efeito colateral e não o efeito esperado da medicação. Ela serve para ajustar os níveis de insulina no sangue, mas por acaso acertou nos receptores que tiram a fome. Como isso é um efeito colateral, muitas pessoas não terão essa perda de apetite. Além disso, se a pessoa começa a usar esse medicamento, mas não tratar o que está causando a compulsão alimentar, ela provavelmente vai recuperar o peso.
![“Se a pessoa começa a usar esse medicamento [canetas de emagrecimento], mas não trata o que está causando a compulsão alimentar, ela provavelmente vai recuperar o peso” (Paulo Lara)](https://cdn.dpontanews.com.br/midia/2026/03/07/1772908892095_foto-caneta-por-reproduaao_otimized.webp)
Seria mais ou menos como acontece com a cirurgia bariátrica?
Exatamente. Nós temos de tomar muito cuidado com a cirurgia bariátrica, porque ela vai mexer no seu intestino, mas não vai avisar o seu cérebro. Depois de alguns meses, não caberá tanto alimento no seu trato gastrointestinal, mas o seu cérebro vai querer recuperar aquele peso. Além de gradativamente ir aumentando a vontade de comer, muitas vezes vai aumentar o consumo de bebida alcoólica, porque o corpo sabe que ali tem bastante energia. Então, parece que é só fazer a cirurgia ou comprar uma canetinha na farmácia e pronto, mas o processo todo é muito mais complexo do que isso.
Na sua opinião, qual é a melhor abordagem para o tratamento da obesidade?
A gordura é só a pontinha do iceberg. Por trás do excesso de peso existem muitas outras coisas a serem tratadas. Então você não trata a gordura atacando a gordura. Você trata o excesso de peso tratando o que está levando a comer mais. A obesidade é uma doença multifatorial e, como tal, merece uma abordagem multiprofissional.
É comum algumas pessoas culparem o “metabolismo lento” por não conseguirem emagrecer. Qual é o papel do metabolismo no emagrecimento? Ele pode ser “acelerado” para estimular a queima de gordura?
Existem três tipos de metabolismo. Nós temos o paciente que é o ectomorfo, que é aquele paciente que pode comer o que quiser e dificilmente vai engordar. O metabolismo dele tende a ser mais acelerado, ele queima mais calorias e absorve menos energia. O corpo de quem tem o biotipo mesomorfo vai responder conforme o que ele está fazendo. Se ele está se cuidando e se alimentando bem, ele consegue emagrecer com relativa facilidade; mas, se ele não está fazendo exercício e está comendo muita besteira, vai engordar. Mas ele não vai engordar tanto quanto um endomorfo, que é aquele paciente que tem graus maiores de obesidade. O corpo desse paciente absorve muito mais energia e tem uma dificuldade muito maior de queimar calorias. São coisas genéticas que, infelizmente, nós não conseguimos mudar, mas podemos usar exercícios físicos e alguns medicamentos para dar uma acelerada nesse metabolismo.
Por falar em exercícios físicos, a musculação é uma prática esportiva que está crescendo muito. Como deve ser a rotina de treinos de alguém que está treinando para emagrecer?
Muita gente se espanta quando eu digo que é possível emagrecer sem fazer musculação. Um quilo de massa muscular queima, em média, apenas 15 calorias. Ou seja, é praticamente nada. Porém, é importante fazer musculação para o seu corpo perceber que está usando os músculos e mandar a gordura embora. Quando o corpo precisa de energia, ele tem duas opções: queimar gordura ou músculo. E tudo que o corpo não está utilizando, ele tende a mandar embora. Geralmente, nós recomendamos que o paciente faça pelo menos 150 minutos de atividade física por semana.
E, no caso de quem está treinando para ganhar massa muscular, como deve ser a rotina?
Para ganhar massa muscular, nós precisamos ter um superávit calórico e proteico. Ou seja, precisamos ingerir uma quantidade mínima de proteína consumindo carne, frango, ovos, leite ou até suplementos como o whey protein. Em média, um grama de proteína por quilo de peso. Então, uma pessoa que pesa 80 quilos tem de consumir pelo menos 80 gramas de proteína. Além disso, o sono é muito importante, porque é quando realmente você vai construir a massa muscular. Durante a musculação, você faz um processo de inflamação do músculo e ele vai crescer para te proteger. Só que ele vai crescer enquanto você está dormindo.
Além da estética, quais são os benefícios da musculação?
A musculação ajuda muito na liberação de endorfina, serotonina e outros neurotransmissores responsáveis pela sensação de prazer e bem-estar. Muitas vezes, a pessoa não gosta muito de fazer musculação no começo, só que depois ela começa a perceber que o corpo está se sentindo bem e até sente falta do exercício físico, justamente pela sensação de bem-estar. É como se fosse um ansiolítico natural ou um antidepressivo natural.

Qual é a importância da musculação para quem está entrando na terceira idade ou já é idoso?
Hoje se fala muito sobre banco de músculos. É como se fosse uma reserva de massa muscular que nós precisamos criar para a terceira idade. Um dos piores cenários que temos na medicina é a fratura de fêmur ou de quadril em idosos. Muitas vezes, o paciente vai chegando ali nos 60 anos e os músculos que deveriam proteger os ossos não existem mais, então qualquer queda ou escorregão pode resultar em fratura. Lembrando que o coração também é um músculo. Conforme você vai se exercitando, você também está contribuindo para a força do músculo cardíaco.
Como deve ser a rotina de um idoso que começou a fazer musculação agora?
Nesses casos, eu sempre oriento a começar devagar. Se você é uma pessoa que já passou dos 60 anos e nunca fez nada, o ideal é começar fazendo uma caminhada de 20 minutos ou 30 minutos. Sempre que possível e se for financeiramente viável, procure um profissional de educação física ou fisioterapeuta para te auxiliar. O seu corpo não está preparado para aquilo, e a chance de se machucar, romper um tendão ou ter algum problema articular é muito grande.
Quais são, de modo geral, os erros mais comuns que as pessoas cometem quando o assunto é musculação?
Um dos erros mais comuns é priorizar a carga em vez do movimento. Muitas vezes a pessoa não quer colocar pouco peso e começa a fazer o exercício errado. A chance de se machucar fazendo isso é gigantesca. Outro erro é esquecer que a alimentação faz toda a diferença. Fazer musculação é como construir uma parede, e os tijolinhos dessa parede são as proteínas. Se você não tiver proteína na sua alimentação, a sua parede não vai crescer. As pessoas também erram quando priorizam a suplementação no lugar da alimentação. Não adianta nada querer suplementar se você não estiver fazendo o básico bem-feito.
O que seria fazer o básico bem-feito? Como, enfim, deve ser a alimentação ideal?
No mundo perfeito, nós esperamos que uma pessoa coma, pelo menos, cinco porções de frutas por dia e, de preferência, frutas diferentes, e tome, pelo menos, 30 ml de água por quilo de peso. Por exemplo, uma pessoa que pesa 70 quilos tem de tomar pelo menos 2,1 litros de água. As proteínas têm de ser a base da alimentação, tanto para quem está tentando emagrecer quanto para quem está querendo ganhar massa muscular. Muita gente tem medo de comer gordura, mas ela é importante na produção hormonal e na absorção de alguns grupos de vitaminas. Em uma dieta correta, você tem de comer entre 50% e 60% de carboidratos, lembrando que os legumes e os vegetais são fonte de carboidratos.
Conteúdo publicado originalmente na edição 310 da revista D'Ponta